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"Vão
faltar talentos"
Assunto/s
| Recursos humanos - Relações trabalhistas - Competência
Autores
| Penha, Cícero Domingos
Publicado
| 08/2000
É
isto mesmo. Por mais estranho que pareça, o futuro do
mercado de trabalho no Brasil é promissor e não terá
gente preparada o suficiente para as oportunidades que
surgirão. O futuro será constituído de pouco emprego,
mas de muito trabalho.
Aliás,
se fizermos uma análise hoje, já iremos encontrar sinais
claros dessa situação futura. Qualquer agência de empregos
no País tem hoje listas de ofertas de trabalho. Mesmo
com uma tonelada de currículos e uma fila enorme de
pessoas procurando emprego, não é possível preencher
as vagas.
Para
entender este fenômeno, precisamos de uma análise mais
detalhada. Primeiro é preciso separar mercado de trabalho
daquilo que todos conhecem como mercado de emprego.
MERCADO
DE TRABALHO x MERCADO DE EMPREGO
No
mercado de trabalho, iremos encontrar todo o esforço
humano, seja físico ou mental. Visando produzir algum
bem remunerado ou não, sob as mais variadas formas de
vínculo, em que o emprego é apenas uma das fórmulas
entre tantas outras, tais como autônomos, profissionais
liberais, microempresários etc. Nele encontramos desde
o trabalho do jardineiro até o do especialista em física
quântica, que presta serviços de consultoria a várias
empresas sem ser empregado de nenhuma delas.
O
emprego é uma invenção da era industrial cuja essência
exigia força humana em massa e trabalho repetitivo que,
com o avanço da tecnologia, foi substituído pela máquina.
A tecnologia destrói empregos burros e cria trabalhos
inteligentes. Tem sido assim no mundo inteiro.
No
mercado de emprego encontramos uma situação caótica,
onde há uma relação de subordinação e dependência que
inibe a criatividade e a ação empreendedora. Trata-se
da famosa relação empregado x patrão, na qual cada um
tem estabelecidos seus limites através de uma regulamentação.
No
Brasil, a relação de emprego, aos olhos dos trabalhadores,
parece ser a única relação de trabalho. O modelo brasileiro
vem da década de 40, possui uma regulamentação exagerada
com raízes no modelo fascista da era Mussolini, dotado
de fortes princípios paternalistas extremamente onerosos
para as empresas.
O
excesso de regulamentação, aliado ao avanço da tecnologia
e o surgimento da demanda de trabalho intelectual cada
vez maior, na produção de bens e serviços com flexibilidade
na relação de subordinação e dependência, tornará cada
vez mais o emprego em baixa e o trabalho em alta.
Vê-se
portanto, numa primeira análise, que o mercado de trabalho
é infinitamente maior que o de emprego.
O
EXEMPLO AMERICANO
Em
uma segunda análise, vamos observar o que ocorre hoje
com o mercado de trabalho americano porque o Brasil
será, provavelmente, o reflexo dele. O espírito empreendedor,
aliado ao modelo flexível de relações trabalhistas e
o investimento em educação, fizeram surgir naquele país
tantas oportunidades de trabalho que hoje ele precisa
importar talentos dos quatro cantos do mundo. O mérito
americano é que eles perceberam primeiro que todos os
demais países que a demanda por talentos na era do capital
intelectual exigiria relações abertas e que a revolução
da tecnologia da informação geraria uma infindável quantidade
de prestadores de serviço que seriam capazes de oferecer
ocupação a toda nação. Hoje, os americanos prestam serviços
ao mundo mesmo possuindo poucas indústrias. Possuem
tanta oportunidade de trabalho que precisam recorrer
a importação de profissionais.
A
CARÊNCIA DO BRASIL POR TALENTOS PREPARADOS
Analisando
agora o caso do Brasil, os sinais estão sendo verificados
em todos os setores. Qual é a empresa atualmente que
não precisa de alguém com idéias novas para solucionar
seus problemas? Quanto uma empresa está disposta a pagar
a um talento que apresente um projeto de um novo produto
ou serviço que seja viável à sua linha de negócios?
Que empresa não gostaria de ter alguém que possa lhe
facilitar a atração de novos clientes? Qual delas não
daria trabalho a quem é especialista em analisar e descobrir
novos mercados; enfim, quem não precisa hoje de gente
que possa fazer diferença?
Se
pegarmos o setor de telecomunicações, por exemplo, há
hoje uma guerra declarada pela atração e retenção de
talentos. A privatização do setor escancarou as mazelas
e as carências acumuladas em décadas de atraso e falta
de investimentos em gente. O resultado é que os poucos
talentos existentes com conhecimentos e habilidades
neste setor estão sendo disputados a peso de ouro. Essa
situação irá se agravar com a entrada das empresas-espelho
e as chamadas bandas C e D. Será um "Deus nos acuda"
para encontrar talentos no Brasil. A revolução do mercado
de trabalho no Brasil está apenas começando. Imagine
a chegada de novas empresas em todos os setores da economia.
AS
TRÊS CATEGORIAS DE TRABALHADORES
Ao
longo dos próximos dez anos, o Brasil mudará o perfil
de seu mercado de trabalho, mesmo possuindo hoje três
categorias diferentes de trabalhadores.
Há
uma classe que nem por milagre se enquadrará nessas
novas oportunidades. São aqueles que possuem pouca formação
intelectual, acostumados, ao longo dos anos, com a cultura
de emprego e que não querem voltar a estudar. É a geração
"carteira assinada". Estes continuarão sofrendo
e engrossando a fila de desempregados até descobrirem
que podem sobreviver prestando serviços autônomos de
baixa relevância.
A
outra categoria é formada, em sua maioria, por jovens
que têm uma boa formação intelectual, estão ligados
nas tendências, têm boa vontade de fazer mas precisam
de ajuda para entender melhor como fazer. São profissionais
que, uma vez treinados e desafiados, responderão à altura.
São pessoas com potencial de aprendizagem e conscientes
de que precisam evoluir. Esta categoria será, em médio
prazo, "a bola da vez".
A
terceira categoria é constituída por talentos já prontos.
Infelizmente é uma minoria, daí a disputa das empresas
em comprarem seus passes. Esses profissionais estão
na mira dos headhunters e são alvos de propostas consideradas
até mesmo escandalosas, envolvendo pagamento de luvas
e tudo mais.
São
pessoas com visão estratégica, com mentalidade evoluída,
que buscam por conta própria a sua formação, entendem
o significado do cliente, provocam mudanças, quebram
paradigmas, usam a criatividade para "inventar"
novos produtos e serviços. São aqueles que hoje fazem
acontecer. O incrível é que vamos encontrar pessoas
assim em todos os setores e com as mais variadas formações.
O que significa que essa categoria não é privilégio
de "doutores". A base é a abertura de cabeça.
Em
outras palavras, temos então uma categoria de baixo
potencial, que ainda não entendeu nada e bate de porta
em porta procurando emprego. Outra com grande potencial
que está se esforçando para entender e uma terceira
que já entendeu tudo sobre esta nova era e está sendo
o motor da mudança.
AS
OPORTUNIDADES QUE VIRÃO
Quando
digo que a guerra por talentos está apenas começando
no Brasil, além dos fatores acima descritos, temos que
considerar também o que está por vir em termos de abertura
de novas oportunidades.
A
demanda começou há um ano atrás pelo setor de telecomunicações.
Neste momento, vivemos o boom da Internet, onde o e-commerce
está criando milhares de vagas. Estão para surgir outras
revoluções como, por exemplo, a área de alimentos, com
a modernização da cadeia do agribusiness; o crescimento
vertiginoso do setor automobilístico, cuja cadeia atinge
desde o fabricante de autopeças até o lavador de carros,
e a área de produção de software que cada vez mais atuará
visando facilitar as operações de negócios.
O
setor de Turismo, Lazer e Entretenimento projeta grandes
investimentos com a entrada de megainvestidores, considerando
que o Brasil é um dos grandes potenciais do mundo neste
setor, e hoje ainda recebe menos que 5% dos turistas
que a França recebe todo ano.
Imagine
quantas oportunidades surgirão dessa transformação.
Quanta gente preparada para fazer face à necessidade
de lançar novos produtos e serviços essas empresas irão
necessitar?
O
DESAFIO DE TER TALENTOS PREPARADO
Como
vimos, não há estoque de talentos prontos. As empresas
e as oportunidades que estão chegando precisam de gente
para entrar em campo já jogando. Não tem tempo para
treinar, entretanto, a disputa pelo escasso contingente
de talentos preparados tem um limite. O desafio então
é começar imediatamente a preparação dos talentos potenciais.
O
desafio de preparar a classe trabalhadora para essa
nova realidade é complexo. Depende, em parte, do governo,
dos empresários, das instituições de ensino, mas, acima
de tudo, depende dos próprios trabalhadores.
O
governo precisa fazer a reforma da legislação trabalhista
e sindical. Também necessita estruturar melhor a justiça
do trabalho, rever o papel do Ministério do Trabalho,
que atualmente coloca no mesmo nível os bons e os maus
empregadores. Hoje, estes fatores atuam mais como desmotivadores
do que como influenciadores da geração de empregos e
trabalhos.
Os
empresários precisam investir mais forte em treinamento
e desenvolvimento dos seus talentos. Cada empresa deve
representar também o papel de escola, criar um ambiente
de trabalho em que o erro seja considerado uma oportunidade
de aprender e as pessoas incentivadas a criar e desenvolver
idéias.
As
instituições de ensino têm que atualizar o currículo
escolar e se aproximar mais das empresas e da realidade
do mundo do trabalho e dos negócios.
Aos
trabalhadores cabe uma parte também muito difícil: a
de se motivar a estudar, buscar o aprendizado, esforçar-se
para entender o mundo que está em volta de si, aprender
a pensar e exercitar a criatividade, despertar a curiosidade
e ter iniciativa de experimentar, de ser ousado e perder
o medo de ser punido por tentar acertar e, o principal,
preparar-se para ser um prestador de serviços independentemente
do vínculo. Um prestador de serviços que entenda o significado
do cliente como o seu grande patrão.
Mesmo
com tudo isto acontecendo, ainda assim vão faltar talentos
o suficiente para o País empreendedor que começa a impor
presença no mercado mundial.
Cícero
Domingos Penha é vice-presidente de Talentos Humanos
da Algar Telecom S/A.
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